Ficha Técnica
Título do projeto: Kiki – uma ponte entre os mundos
Produtora: Enseada Filmes
Formato: Ficção
Gênero: Coming of age teen | Realismo Fantástico
Duração: 90 min
Suporte: Digital. 4k|Cor| 5.1
Distribuidora: Olhar Filmes
A História
Sinopse – KIKI, 17, é uma jovem que pertence a uma comunidade originária, e está em crise com a sua cultura ancestral, por isso, desde que passou a estudar como bolsista em uma escola particular, ela passou a usar seu nome branco Juliana. E agora, apesar de ter sido predestinada a substituir a sua mãe como curandeira da comunidade, ela está se preparando para fazer os exames de vestibular e ir estudar e morar bem longe dali, na cidade grande.
No entanto, no dia em que planeja partir para o exame, Kiki encontra sua mãe discutindo com uma vizinha que, por ordem do pastor da igreja, havia arrancado as ervas de cura do seu jardim. Kiki acalma a situação, mas sua mãe exige que ela vá à casa de sua avó buscar as plantas que faltam. Kiki não pode, pois tem um compromisso. Sua mãe insiste, afirmando que aquilo é o sustento e o futuro da jovem. Elas discutem fortemente e Kiki acaba fugindo, embarcando numa viagem rumo ao seu “passaporte” para a universidade.
Após a prova do vestibular, Kiki e sua amiga são convidadas para uma festa universitária onde conhecem alguns “veteranos”da antropologia e do cinema. Eles se mostram extremamente entusiasmados com a presença de Kiki, acreditando que um documentário inédito sobre seu povo seria um grande sucesso. Kiki explica a crença de sua comunidade de que, quando uma pessoa morre, todos os seus pertences — incluindo retratos e registros — devem ser queimados para que a alma possa “encantar” em paz, razão pela qual raramente permitem ser filmados, pois se esses registros se perderem, a alma da pessoa pode ficar presa aqui neste plano pra sempre. O produtor insiste e explica que um filme traria um bom dinheiro, que poderia ajudar a todos, o que faz Kiki hesitar.
De volta a casa, Kiki procura sua mãe e conta que mudou de ideia: irá à casa de sua avó buscar as ervas, o que surpreende a matriarca.
No entanto, lá, secretamente, Kiki começa a filmar diversas formas de conhecimento, costumes e rituais de seu povo. E como ela não acredita nessa cosmologia – afinal guarda até hoje uma foto escondida de seu falecido pai, ela começa a vender as imagens para a produtora, para financiar seus planos futuros.
Acontece que um dia, a comunidade — que vem sendo sistematicamente ameaçada por uma hidrelétrica em um conflito de terras, desde a época de seu falecido pai — sofre um assalto no qual a avó de Kiki fica gravemente ferida e não resiste. Desesperada, Kiki tenta apagar todas as imagens que havia feito de sua avó, mas é tarde demais, pois elas já haviam sido transmitidas pela televisão. Afundada em culpa, ela dorme na rua naquela noite e tem um sonho onde se encontra com sua avó, quem lhe conta que ela terá que ir ao mundo dos mortos para reverter essa maldição.
Agora Kiki começa uma busca dupla: uma atrás do Kikikoi, um ritual proibido que abre um portal para o mundo dos mortos; e outra atrás de provas contra a hidrelétrica, usando sua câmera pra coletar evidências. Ironicamente, é esta segunda busca que leva Kiki ao mundo dos mortos, quando um tiro lhe arranca a vida.
No mundo dos mortos – um floresta escura e vazia – ela se encontra com seus espíritos ancestrais, uma luz que, em troca de outra oportunidade, lhe encomenda três tarefas: coletar as memórias orais de sua avó, pra salvar sua eternidade; queimar a foto oculta que guardava de seu pai para deixá-lo encantar; e, finalmente, sacrificar a sua própria imagem e eternidade para representar e defender a comunidade de agora em diante. Kiki aceita e ganha a possibilidade de retorno ao mundo dos vivos, onde escuta histórias lindas de sua avó; onde encontra a comunidade, com quem encontra apoio para queimar a foto de seu pai; e onde se tornará uma grande líder indígena, cuja morte e retorno à vida, jogou luz sobre a questão da barragem. Mas antes, Kiki propõe uma troca aos seus espíritos: a imagem deixará de ser uma maldição e passará a ser uma arma de seu povo. Suas divindades concordam e topam o acordo.
Kiki termina o filme indo falar com os jornalistas, com seu rosto pintado e assumindo o seu nome original.
Tema
O filme atravessa temas típicos dessa jornada coming of age, como os paradoxos entre pertencimento vs deslocamento, o mundo do estudo vs o mundo do trabalho, e a ancestralidade vs a modernidade. Tudo através do olhar de Kiki, uma adolescente que está em busca de afirmar a sua identidade, ao mesmo tempo em que tem que lidar com o luto da perda do pai, deixando queimar sua última foto que ela guarda escondida desde pequena – outro drama universal que atravessa a sua jornada. Além disso, o filme discute o próprio cinema e os diversos significados da imagem audiovisual. Mas também a própria ideia de representação, usando uma metáfora mágica pra falar sobre apropriação cultural.
Motivação
De um lado, KIKI tem uma trama e um tema absolutamente universal, um drama de amadurecimento juvenil, que fala com qualquer pessoa sobre os desafios de construir e afirmar a sua própria identidade, seu propósito e seu lugar no mundo, uma jornada que é atravessada pelas nossas referências, pelos nossos desejos, medos, pulsões, traumas e nossas vontades – de pertencer ou não – mas muitas vezes também é atravessada por uma ancestralidade, que aqui é originária, mas que poderia ser Arabe, Niponica, Latina ou de qualquer outra cultura, no sentido que o nome e o traço que atravessa o rosto da nossa personagem e que ela tenta esconder debaixo de uma maquiagem ou de um filtro de gatinho, poderia ser um hijab, um kipá, um kimono, uma reza ou o próprio idioma. E aqui, tudo isso é recortado por um olhar crítico, que anuncia os desafios de ser um jovem que está a ponto de terminar o segundo grau e olha o horizonte com incerteza, mas que sabe que para as minorias e para a classe trabalhadora de maneira geral, este é um percurso atravessado por muita escassez, sonhos frustrados, e uma série de outras dificuldades.
Do outro lado, o filme propõe abraçar esse drama universal com muita inventividade, atravessando o próprio cinema e a imagem audiovisual com uma certa metalinguagem, desde um diálogo bastante instigante de gêneros, assumindo uma metáfora mágica e a própria fantasia, pra falar sobre temas reais e universais, mas de uma forma autoral, criativa e ao mesmo tempo orgânica, no sentido que a nossa vida, na América Latina originária, é cheia de crenças, fés e rituais.
Soma-se a essa prerrogativa mágica e crítica, a junção entre um time experiente, que já fez diversos filmes de ficção, junto com um time indígena, capaz de trazer para o filme um frescor e um olhar decolonial e inovador, num encontro de troca e transferência de tecnologia. Tudo isso com uma produção cuidadosa, que já levou o projeto a diversos laboratórios, residências e mercados importantes.
Por último e não menos importante, este filme nos daria a chance de reinventar um imaginário e uma identidade mais diversa para o nosso Estado, dando voz a quem pouco teve, garantindo a inclusão em diversos aspectos, sendo um agente cultural, social e econômico numa região bastante carente de incentivo, e sobretudo, fazendo um cinema novo, inventivo, crítico e urgente.Isso é o que nos faz acreditar que o filme pode percorrer um caminho de muito prestígio, levando o nosso cinema, feito no interior, a um lugar de reconhecimento nacional e internacional. Mas sobretudo, levando para o espectador de toda a família, uma experiência estética nova, que toca e afeta.
Proposta de direção e referências
Soma-se a essa prerrogativa mágica e crítica, a junção entre um time experiente, que já fez diversos filmes de ficção, junto com um time indígena, capaz de trazer para o filme um frescor e um olhar decolonial e inovador, num encontro de troca e transferência de tecnologia. Tudo isso com uma produção cuidadosa, que já levou o projeto a diversos laboratórios, residências e mercados importantes.
Por último e não menos importante, este filme nos daria a chance de reinventar um imaginário e uma identidade mais diversa para o nosso Estado, dando voz a quem pouco teve, garantindo a inclusão em diversos aspectos, sendo um agente cultural, social e econômico numa região bastante carente de incentivo, e sobretudo, fazendo um cinema novo, inventivo, crítico e urgente.Isso é o que nos faz acreditar que o filme pode percorrer um caminho de muito prestígio, levando o nosso cinema, feito no interior, a um lugar de reconhecimento nacional e internacional. Mas sobretudo, levando para o espectador de toda a família, uma experiência estética nova, que toca e afeta.
Proposta estética
Drama e Universo
Por um lado, construímos o filme sobre o drama desta personagem em luto e seu aprendizado para encontrar formas e rituais de lidar melhor com ele. Mas também sobre este drama de transição para a idade adulta, de uma adolescente que busca sua auto afirmação e se confronta com esse deslocamento, que todos nós já sentimos alguma vez.
Por outro lado, tentamos construir um microuniverso que tem seu próprio tempo e suas próprias regras, habitado por personagens reais e fantásticos, e por um povo nativo que não conhecemos, um povo distópico, com seus próprios rituais e crenças, uma pequena Macondo. Portanto, este é o grande desafio desta dramaturgia: encontrar um equilíbrio entre a realidade e a fantasia, de maneira que uma afete a outra para que possam caminhar juntas, desde o começo até o final do filme.
Personagens
Kiki
Protagonista e ponto de vista do filme, Yvá descobre ao longo do filme o significado de seu nome e com ele seu propósito e sacrifício, de ser uma ponte entre os mundos. Seu arco, que começa numa crise entre o mundo ancestral e o mundo moderno, onde ela se apaga pra se encaixar, será conciliar esses dois mundos, na medida em que se afirma como indivíduo, através da própria afirmação coletiva. Além disso, lidar com o luto da perda do pai, e ter um outro entendimento sobre a morte, deixando queimar a última foto que guarda dele, também é outra camada que irá compor o seu arco.
Nathalia
Mãe de Yvá, Nathália é uma personagem complexa, que de um lado saiu da comunidade depois de um grande e violento trauma que foi a perda do marido, mas que mantém a todo custo a cultura e o idioma vivo em casa, sendo inclusive, quem intui a importância de Yvá empreender essa viagem ancestral até a casa de sua avó. No entanto, pela sua dureza e seus medos, pra filha, ela representa o velho e tudo que Yvá nega.
Ara Poty
Como em muitas outras culturas, a vida guarani passa necessariamente pela ancestralidade, e Ara Poty não só enuncia essa questão, como também representa uma característica cosmológica positiva de seu povo, que é uma origem mitológica feminina muita mais justa que a cristã, o que caracteriza uma sociedade onde as mulheres carregam uma importância política e espiritual de muita relevância. Ela de alguma maneira sabe o que a neta está fazendo, mas intui que esse processo será necessário pra que Yvá depois dê conta de uma luta maior, sendo assim uma espécie de mentora no mundo dos vivos, mas também no mundo dos mortos.
Conká
Sua amiga adolescente guarani cresceu mais conectada com a cultura, e portanto representa quase um alter-ego da amiga, quem anuncia uma outra existência jovem possível e convida Yvá para esse mundo, inspirando e deixando antever uma conciliação entre modernidade e ancestralidade com quem Yvá irá se identificar e querer pertencer/somar forças. No entanto, diferente de Yvá, seu nome lhe confere outras características, que ajudam na organização interna da comunidade.
Pai
O pai de Yvá era uma liderança importante, cuja vida foi tirada em um conflito agrário, um episódio marcante que acendeu um holofote pra luta de seu povo ali, e de alguma maneira contribuiu com a retomada da primeira parte do seu território originário, legando um saldo positivo, mas também um conflito por resolver com os mineradores ilegais que ainda residem na segunda parte do lugar. No entanto, ele representa pra Yvá uma jornada subjetiva e universal também, que tem a ver com o luto, pois ela carrega uma foto do pai escondida desde pequena, queimá-la ao final, deixando ir, selará sua transformação.
Amanda
Um chamado para o mundo branco, Amanda é uma personagem mais complexa, que em alguns momentos ajuda Yvá e em outros, ignorando seus privilégios, expõe a amiga a alguns perigos.
Hidrelétrica
Gostaríamos de abordar estes personagens de uma forma mais conceitual e menos pessoal, quase sempre silhuetados, desfocados ou mal enquadrados, remetendo mais a uma ideia de sistema do que a um personagem em si.
Locações
O filme será gravado basicamente em locações reais, seja na periferia urbana de Chapecó ou na Aldeia Kaingang e Guarani em quem a história também é inspirada, incluindo aqui a escola indigena Fennó, fruto da luta nesse território.
A distopia do mundo dos mortos será construída no mesmo lugar, usando o conceito de vazio e abandono para retratá-lo, com adição de pinturas neon e trazendo o contraste do fogo.
E a cena final do rio deve ser filmada perto de algumas das barragens da região.